Como Soltar o Peixe: Guia de Catch and Release

O catch and release, ou pesque e solte, é uma prática fundamental para a conservação dos recursos pesqueiros e a sustentabilidade da pesca esportiva. No Brasil, onde a pressão sobre os estoques de peixes cresce a cada ano, soltar o peixe corretamente não é apenas um gesto de consciência ambiental, mas uma necessidade para garantir que as futuras gerações também possam desfrutar da emoção de fisgar um grande peixe. Porém, soltar o peixe não basta — é preciso soltá-lo da forma correta para que ele sobreviva e continue se reproduzindo. Neste guia, vamos apresentar todas as técnicas e cuidados necessários para uma soltura bem-sucedida.

Por Que Praticar o Catch and Release

A prática do catch and release tem ganhado cada vez mais adeptos no Brasil, e os motivos vão além da simples preservação ambiental. Entender a importância dessa prática é o primeiro passo para adotá-la de forma consistente.

Conservação dos Estoques

Muitas espécies de peixes esportivos no Brasil estão sob pressão crescente. O tucunaré, o dourado, o robalo e diversas outras espécies sofrem com a pesca predatória, a destruição de habitats e a poluição. Cada peixe devolvido à água de forma correta é um indivíduo que continuará crescendo, se reproduzindo e contribuindo para a saúde da população.

Sustentabilidade da Pesca Esportiva

A pesca esportiva depende de populações saudáveis de peixes. Se todos os peixes capturados forem retirados da água, em pouco tempo os rios e mares ficarão empobrecidos, e a própria atividade de pesca será inviabilizada. O catch and release é um investimento no futuro da pesca esportiva.

Valor Econômico

A pesca esportiva movimenta bilhões de reais no Brasil entre equipamentos, viagens, hospedagem e serviços. Um peixe vivo tem muito mais valor econômico do que um peixe morto, pois pode ser capturado e solto diversas vezes, gerando renda e emprego para comunidades que dependem do turismo de pesca.

Preparação Antes da Pescaria

Uma soltura bem-sucedida começa antes mesmo de você fazer o primeiro arremesso. A preparação adequada faz toda a diferença.

Escolha dos Anzóis

Prefira anzóis sem farpa (barbless) ou amasse a farpa com um alicate antes de pescar. Anzóis sem farpa são muito mais fáceis de remover, causam menos dano ao peixe e reduzem drasticamente o tempo de manipulação. Ao contrário do que muitos pensam, a taxa de escape de peixes com anzóis sem farpa é apenas ligeiramente maior do que com anzóis com farpa, especialmente se você mantiver a linha tensionada durante a briga.

Anzóis de círculo (circle hooks) são outra excelente opção para quem pratica catch and release, especialmente na pesca com isca natural. Eles tendem a fisgar o peixe no canto da boca, evitando engolimentos profundos que podem causar ferimentos internos fatais.

Equipamento Adequado

Use equipamentos compatíveis com o porte dos peixes que pretende capturar. Equipamentos muito leves para peixes grandes resultam em brigas excessivamente longas, que esgotam o peixe e reduzem suas chances de sobrevivência após a soltura. O objetivo é trazer o peixe para perto no menor tempo possível, sem que ele atinja a exaustão completa.

Material de Apoio

Tenha sempre à mão um alicate de bico longo para remoção de anzóis, um alicate de contenção (lip grip) para segurar o peixe com segurança, e uma rede de contenção (puçá) com malha de borracha ou silicone, que é menos danosa à camada de muco protetora do peixe. Evite redes com malha de nylon, pois elas removem o muco e podem causar abrasões.

Durante a Briga

A forma como você conduz a briga com o peixe tem impacto direto na sua sobrevivência após a soltura.

Tempo de Briga

O fator mais crítico é o tempo de briga. Quanto mais longa a briga, mais ácido lático se acumula nos músculos do peixe e mais estressado ele fica. Peixes exaustos por brigas muito longas podem morrer horas após a soltura, mesmo parecendo bem no momento em que são devolvidos à água. Use o equipamento de forma assertiva, mantendo pressão constante para trazer o peixe rapidamente.

Ajuste do Freio

Antes de começar a pescar, ajuste o freio do molinete ou carretilha de forma adequada. Um freio muito frouxo prolonga desnecessariamente a briga, enquanto um freio muito apertado pode arrebentar a linha. A regra geral é ajustar o freio para cerca de um terço da resistência da linha.

Manipulação do Peixe

A forma como você manipula o peixe após capturá-lo é determinante para sua sobrevivência.

Mãos Molhadas

Sempre molhe as mãos antes de tocar no peixe. A pele dos peixes é coberta por uma camada de muco que os protege contra infecções por bactérias e fungos. Mãos secas, luvas de tecido e superfícies ásperas removem essa camada protetora, deixando o peixe vulnerável a doenças que podem matá-lo dias após a soltura.

Evite Retirar da Água

Sempre que possível, remova o anzol com o peixe ainda dentro da água. Se precisar retirá-lo para uma foto, minimize o tempo fora da água. A regra prática é: segure a respiração quando tirar o peixe da água e devolva-o antes que você precise respirar. Nunca mantenha o peixe fora da água por mais de 30 segundos.

Como Segurar o Peixe

Nunca segure o peixe apenas pelo maxilar inferior com o corpo pendente na vertical, pois isso pode deslocar a mandíbula e danificar órgãos internos. Sempre apoie o corpo do peixe com a outra mão, mantendo-o o mais próximo possível da posição horizontal. Para peixes com dentes, como a traíra e o dourado, use o alicate de contenção, mas sempre com apoio na barriga do peixe.

Remoção do Anzol

Use o alicate de bico para remover o anzol com movimentos rápidos e precisos. Se o anzol estiver engolido profundamente, corte a linha o mais próximo possível do anzol e devolva o peixe à água. Tentar remover um anzol engolido causa muito mais dano do que deixá-lo, pois o anzol será corroído e expelido naturalmente em poucos dias.

A Soltura Propriamente Dita

O momento da soltura é crucial e exige atenção e paciência.

Técnica de Revitalização

Se o peixe estiver visivelmente cansado após a briga, ele precisará de ajuda para se revitalizar antes de ser solto. Segure o peixe delicadamente pela base da cauda e pela barriga, mantendo-o submerso com a cabeça voltada para a corrente (em rios) ou para o mar aberto. Essa posição permite que a água passe pelas brânquias, oxigenando o sangue.

Movimente o peixe suavemente para frente e para trás, simulando o movimento natatório. Não o solte até que ele demonstre vigor, tentando escapar das suas mãos com força. Um peixe solto prematuramente pode tombar de lado e afundar, especialmente em águas profundas, morrendo por falta de oxigênio.

Onde Soltar

Solte o peixe em águas calmas e protegidas, longe de correntes fortes que possam arrastá-lo enquanto ele ainda está se recuperando. Evite soltar peixes em áreas com muito sol direto e água quente, que tem menor concentração de oxigênio. Se possível, solte-o próximo a alguma estrutura onde ele possa se abrigar enquanto se recupera.

Sinais de Recuperação

Um peixe recuperado apresentará os seguintes sinais: brânquias se movimentando ritmicamente, nadadeiras firmes e postura horizontal estável, tentativas de escape com força e natação coordenada ao ser solto. Se o peixe tombar de lado ou flutuar na superfície após a soltura, recapture-o delicadamente e repita o processo de revitalização.

Erros Comuns a Evitar

Existem erros frequentes que comprometem seriamente a sobrevivência do peixe após a soltura.

Fotos Demoradas

A vontade de registrar o momento é compreensível, mas sessões fotográficas prolongadas podem ser fatais para o peixe. Prepare a câmera antes de tirar o peixe da água, faça poucas fotos rápidas e devolva o peixe imediatamente. Uma boa dica é filmar a soltura em vez de tirar diversas fotos.

Jogar o Peixe na Água

Nunca jogue o peixe de volta na água. O impacto pode causar ferimentos internos e desorientação. Sempre coloque o peixe delicadamente na água e o segure até que ele se recupere.

Uso de Superfícies Secas

Nunca coloque o peixe em superfícies secas como o chão do barco, grama ou pedras. Essas superfícies removem o muco protetor e podem causar queimaduras térmicas. Se precisar apoiar o peixe em algum lugar, use uma toalha molhada ou um unhooking mat.

O Impacto Positivo do Catch and Release

Estudos realizados em diversas partes do mundo, incluindo no Brasil, demonstram que quando praticado corretamente, o catch and release apresenta taxas de sobrevivência superiores a 90% para a maioria das espécies de água doce e salgada. Isso significa que a grande maioria dos peixes soltos sobrevive e continua contribuindo para a população.

No Brasil, destinos de pesca que adotaram o catch and release obrigatório, como diversas operações de pesca no Rio Negro para tucunarés e no Pantanal para dourados, viram uma melhoria significativa na qualidade da pesca ao longo dos anos, com peixes maiores e mais abundantes.

A pesca esportiva com soltura é a demonstração prática de que é possível conciliar diversão, esporte e conservação ambiental. Cada peixe solto corretamente é uma vitória para o pescador, para a natureza e para o futuro da pesca no Brasil.