O Que É Catch and Release
Catch and release — ou pesque e solte, como dizemos em bom português — é a prática de devolver o peixe à água com vida após a captura, priorizando a experiência esportiva da pescaria e a conservação dos recursos naturais em detrimento da retenção do peixe para consumo. Mais do que uma simples técnica, o catch and release é uma filosofia de pesca que reflete a consciência ambiental do pescador esportivo moderno, que compreende que os estoques pesqueiros são finitos e que cada peixe devolvido com saúde contribui para a manutenção das populações e a sustentabilidade do esporte a longo prazo.
A origem do catch and release remonta à pesca esportiva britânica do século XIX, onde pescadores de trutas e salmões começaram a devolver exemplares menores para que pudessem crescer e se reproduzir. Nos Estados Unidos, a prática ganhou força a partir da década de 1950, impulsionada por organizações conservacionistas e pela percepção de que lagos e rios estavam sendo sobrepescados. No Brasil, o catch and release começou a se popularizar nos anos 1990, acompanhando o crescimento da pesca esportiva como atividade de lazer e turismo, e hoje é um dos pilares fundamentais da cultura pesqueira esportiva nacional.
O princípio central do catch and release é elegantemente simples: o peixe é um recurso renovável desde que seja tratado com respeito. Um tucunaré devolvido à água hoje pode ser capturado novamente por outro pescador amanhã, proporcionando múltiplas experiências de pesca a partir de um único animal. Essa visão transforma o peixe de um produto de consumo descartável em um patrimônio compartilhado por toda a comunidade de pescadores, gerando um incentivo coletivo para a conservação. Quando praticado corretamente, com técnicas e equipamentos adequados, o catch and release apresenta taxas de sobrevivência altíssimas, superiores a 95% para a maioria das espécies esportivas brasileiras.
Como Funciona na Pesca Esportiva
O catch and release bem-sucedido não acontece apenas no momento da soltura — ele começa muito antes, na escolha dos equipamentos e na preparação para a pescaria. A seleção de anzóis adequados é o primeiro passo: anzóis circle são altamente recomendados para pescarias com isca natural, pois fisgam predominantemente no canto da boca, facilitando a remoção e minimizando danos internos. Para a pesca com iscas artificiais, o uso de garatéias sem farpa ou com farpa amassada reduz o tempo de manuseio e o estresse causado ao peixe durante a soltura. O uso de linhas e equipamentos adequados ao porte da espécie-alvo também é fundamental — equipamentos muito leves resultam em brigas excessivamente longas que esgotam o peixe.
Durante a briga, o objetivo é cansar o peixe o suficiente para trazê-lo até as mãos, mas sem exauri-lo completamente. Brigas muito longas causam acúmulo de ácido lático nos músculos do peixe e consumo excessivo de oxigênio, comprometendo sua recuperação após a soltura. Use o drag da carretilha ou do molinete de forma firme, mantendo pressão constante para encurtar o tempo de luta. Tenha à mão um alicate de bico longo para remoção rápida dos anzóis e, se possível, um puçá (net) com malha de borracha que não danifica as escamas e a mucosa protetora do peixe.
O momento da soltura é o mais crítico de todo o processo. Após remover o anzol, segure o peixe gentilmente na água em posição horizontal, com uma mão apoiando o ventre e a outra segurando o pedúnculo caudal. Nunca segure o peixe verticalmente pela boca — o peso dos órgãos internos pode causar danos irreversíveis, especialmente em peixes maiores. Mantenha o peixe na água com a cabeça voltada contra a corrente (em rios) ou movimente-o suavemente para frente e para trás (em águas paradas) para forçar água pelas brânquias e auxiliar a oxigenação. Só libere o peixe quando ele demonstrar vigor, movimentar as nadadeiras ativamente e nadar por conta própria. Se o peixe virar de barriga para cima ou parecer desorientado, continue o processo de recuperação até que ele se estabilize.
Contexto na Pesca Brasileira
O Brasil possui uma das legislações mais progressistas do mundo no que diz respeito à pesca esportiva e ao catch and release. A Lei de Crimes Ambientais e as regulamentações do IBAMA e dos órgãos ambientais estaduais incentivam fortemente a prática do pesque e solte, especialmente para espécies consideradas troféu, como o tucunaré, o dourado e o robalo. Em muitos destinos de pesca esportiva na Amazônia e no Pantanal, o catch and release é obrigatório por regulamentação local, reconhecendo que o valor econômico de um peixe vivo — capaz de atrair turistas repetidamente — é infinitamente superior ao de um peixe morto.
Durante os períodos de piracema e defeso, a legislação brasileira restringe ou proíbe a pesca em diversas regiões para permitir a reprodução das espécies. Nesses períodos, a importância do catch and release ao longo do restante do ano se torna ainda mais evidente: os peixes devolvidos durante a temporada de pesca são os que formarão os cardumes reprodutores durante o defeso, perpetuando o ciclo de vida e garantindo a abundância para as temporadas futuras. Competições de pesca esportiva no Brasil adotaram o catch and release como prática obrigatória, com pesagem em bags de água e protocolos rígidos de manuseio que garantem a sobrevivência dos peixes capturados. Essa cultura conservacionista diferencia a pesca esportiva brasileira e a posiciona como exemplo para outros países da América Latina. Confira as regras sobre piracema e períodos de defeso para planejar sua pescaria com responsabilidade.
Dicas Práticas
Preparar-se para o catch and release antes de chegar à água faz toda a diferença. Monte seu tackle com equipamentos que facilitem a soltura: alicate de bico longo ou hemostático para remoção de anzóis, puçá com malha de borracha, luvas de proteção e, se possível, um unhooking mat (tapete de desengate) para apoiar o peixe durante a remoção do anzol e a foto. Troque as garatéias com farpa das suas iscas artificiais por modelos sem farpa ou amasse as farpas com um alicate antes de pescar. Se estiver usando iscas naturais, prefira anzóis circle que se cravam no canto da boca.
Para a foto — porque todo pescador merece registrar seus troféus — trabalhe com agilidade. Tenha a câmera ou celular já preparado antes de trazer o peixe para fora d’água. Molhe as mãos antes de tocar no peixe para proteger a camada de muco que reveste suas escamas, uma barreira natural contra infecções. Mantenha o peixe fora da água pelo menor tempo possível — o ideal é menos de trinta segundos. Se o anzol estiver engolido profundamente, corte a linha rente ao anzol em vez de tentar removê-lo à força; o anzol será naturalmente expulso ou absorvido pelo organismo do peixe. Em dias muito quentes, quando a água está com temperatura elevada e baixo oxigênio dissolvido, redobre os cuidados: encurte a briga, minimize o manuseio e invista mais tempo na recuperação antes da soltura. Para um guia detalhado sobre técnicas de devolução, leia nosso artigo sobre como soltar o peixe corretamente.
Termos Relacionados
- Anzol Circle — modelo ideal para catch and release
- Anzol — componente que impacta diretamente a sobrevivência do peixe
- Garateia — anzóis triplos que podem ser adaptados para soltura
- Isca Artificial — iscas que facilitam o pesque e solte
- Piracema — período reprodutivo protegido por lei
- Defeso — proibição de pesca durante a reprodução
- Tucunaré — espécie emblemática do catch and release no Brasil
- Como Soltar o Peixe Corretamente — guia completo de devolução
- Pesca na Amazônia — destino onde o C&R é obrigatório
- Pesca no Pantanal — outro grande destino de pesque e solte
Perguntas Frequentes
O peixe realmente sobrevive depois de ser solto? Sim, quando o catch and release é praticado corretamente, as taxas de sobrevivência são altíssimas — superiores a 95% para a maioria das espécies esportivas brasileiras. Estudos com tucunarés marcados com transmissores demonstram que peixes devolvidos retomam seu comportamento normal em questão de horas. Os fatores que mais influenciam a sobrevivência são: tempo de briga, local da fisgada, tempo fora da água e temperatura da água. Usando equipamento adequado, anzóis circle e técnicas corretas de manuseio, a grande maioria dos peixes volta saudável para a água.
Catch and release é obrigatório no Brasil? Não existe uma regra nacional que torne o catch and release obrigatório para toda pesca, mas diversas regulamentações estaduais e municipais o exigem em determinadas áreas, para determinadas espécies ou durante certos períodos. Em muitos destinos de pesca esportiva na Amazônia e no Pantanal, a devolução é obrigatória. Competições de pesca esportiva no Brasil adotam o catch and release como regra universal. Mesmo onde não é obrigatório, a prática é altamente recomendada como atitude ética e conservacionista.
Posso praticar catch and release com qualquer equipamento? Tecnicamente sim, mas alguns equipamentos facilitam muito a prática. Anzóis circle para iscas naturais, iscas artificiais com garatéias sem farpa, alicate de bico longo, puçá com malha de borracha e equipamentos dimensionados para a espécie-alvo (que não prolonguem a briga desnecessariamente) são itens que fazem grande diferença na taxa de sobrevivência dos peixes devolvidos. A pesca com caniço tradicional também permite catch and release, desde que o manuseio seja feito com os devidos cuidados.
E se o peixe parecer morto na hora da soltura — o que fazer? Não desista imediatamente. Segure o peixe na água em posição horizontal, com a cabeça voltada contra a corrente, e movimente-o suavemente para frente e para trás, forçando água pelas brânquias. Esse processo de “ressuscitação” pode levar vários minutos, especialmente após brigas longas ou em dias quentes. Continue até que o peixe mostre sinais de recuperação: movimentação das nadadeiras, tentativas de nadar, fechamento da boca e abertura ritmada das brânquias. Se mesmo após vários minutos o peixe não reagir, e a legislação local permitir, ele pode ser retido — mas na imensa maioria dos casos, com paciência, o peixe se recupera e nada de volta para a liberdade.